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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Resgate da Religião


A palavra "religião", em latim, "religare", de acordo com os dicionários, significa “religar com o divino”. E o que seria isso ? 

Durante algum tempo em minha vida, a simples menção à palavra religião me deixava irritado. Minha intolerância às manifestações religiosas, que eventualmente presenciava, era acima do normal. Para mim, nessa época, estar ligado à algum tipo de religião era dizer ao mundo que o sujeito era fracassado. Em minha visão estreita, os únicos que literalmente lucravam com a fé eram os sacerdotes, ministros, pastores, bispos, e todos que se vestiam da religião que pregavam. Os fiéis que compareciam e suportavam suas igrejas eram, em minha opinião, apenas coitados; pessoas de pouco conhecimento e visão social.

Para mim, a religião não era algo bom. Em alguns casos, fora provado a má conduta em instituições religiosas, má fé, exploração de pessoas e falsidade ideológica. Sem contar perseguições e extremismos. E isso não é bom. Em vista desse lado inescrupuloso e sujo das religiões no mundo inteiro, uma imagem equivocada da idéia do que é o ato de se religar ao divino se confundiu com cenários menos nobres da raça humana. As alegorias contidas nas escrituras sagradas associadas às más intenções de muitos líderes religiosos, de todos os tempos e regiões do planeta, distorceram a idéia do que é religião. Para muita gente que conheço, a religião está associada à conflitos de todo tipo, controvérsias e paixões, que nada tem a ver com o amor, caridade e fraternidade; nada tem a ver com se religar a Deus.


Ainda hoje eu percebo que há muitos problemas no tange a indoneidade e objetividade das instituições religiosas. Entretando, meu entendimento de todo o contexto mudou. A fé sincera e o comportamento reto dos fiéis, de qualquer religião, os salvam e os mantém protegidos no caminho da elevação. Independentemente da idoneidade das instituições, aqueles que crêem em Deus e têm fé, caminham para seu progresso moral e praticam um pouco da verdadeira religião pois a idéia de se religar a Deus é muito ampla e está acima das verdades impostas pelas instituições e de qualquer ato lamentável que os cerca. O conceito de religião mudou para mim. O que antes era atrelado aos dogmas das instituições, hoje é inerente a fé, filosofia de vida e razão. Quando a humanidade entender o conceito de religião, não haverá mais diversas instituições religiosas ciumentas, demagogas e perigosas como as que vemos hoje, mas apenas fiéis, irmãos e sua intimidade com Deus.

A doutrina espírita, quando livre de qualquer profissionalismo religioso, também nos coloca em condições de entendimento de parte disso. A outra parte, se encontra em nosso íntimo, numa relação de buscas e descobertas, que poucos conseguiriam encontrar palavras para descrevê-la.

Ricardo

domingo, 30 de outubro de 2011

Alan Turing e os venenos da vida


Outro dia estava lendo sobre Alan Turing que morreu envenenado por cianeto. Não se sabe se foi acidental, mas o fato é que o veneno o matou. Alan é um dos nomes importantes na história da computação. Ele ajudou na construção do conceito de algoritmo e computação. Entre tantas coisas, trabalhava na inteligência britânica na época da segunda guerra e chegou a trabalhar na área química. Ele morreu após morder uma maçã que estava envenenada com cianeto.

Durante a leitura de sua breve biografia no Wikipedia, me ocorreu a seguinte pergunta: Qual o verdadeiro veneno que o matou? O cianeto foi decisivo, é verdade; entretanto, o que mais poderíamos dizer sobre venenos na vida do Alan?

De acordo com o site, Alan teve uma vida pessoal bem complicada por ser homossexual e porque vivia numa sociedade com pouca ou nenhuma tolerância ao homossexualismo. Ele sofreu um processo criminal por isso (além de preconceito, era ilegal qualquer ato homossexual no Reino Unido daquela época). Foi humilhado publicamente e impedido temporariamente de acompanhar estudos sobre computação, sendo julgado, mais tarde, por "vícios impróprios". Para não ser preso, se sujeitou a fazer tratamento com hormônios femininos, algo que se chama "castração química". Tempos depois, Alan foi encontrado morto em sua residência, tendo uma maçã ao seu lado. Ele teria injetado veneno nessa maçã.


Podemos imaginar que Alan teria cometido suicídio, embora sua mãe e outras pessoas consideraram, na época, que fora um acidente. Se o ato de Alan fora suicídio, qual seria o veneno que o teria matado além, claro, do cianeto? Seja qual for o motivo que levou Alan Turing à morte, podemos considerá-lo (o motivo) também como uma espécie de veneno. Esse veneno ou a razão pela qual ele morreu pode estar ligado à sensações e emoções que ele e todos nós vivemos todos os dias. Intolerância, egoísmo, orgulho, ódio, vaidade, preconceito, inveja e ciúmes são sentimentos e emoções presentes na vida humana que, caso não sejam devidamente tratados, podem trazer consequências devastadoras. São verdadeiros venenos na vida das pessoas e quase inerentes à alma humana dos mais desavisados. A intolerância, por exemplo, pode tomar proporções gigantescas. Juntamente com a ignorância, pode levar um país inteiro a cometer erros catastróficos. O orgulho e preconceito, que geralmente andam juntos em diferentes graus de tolerância e níveis sociais, acarretam prejuízo à todos os envolvidos ainda que seja de maneira inconsciente.

Qualquer sentimento desses pode ser encontrado em maior ou menor escala. Quantas vezes já nos pegamos envolvidos em pensamentos preconceituosos e intolerantes? Quantas vezes o orgulho ou o egoísmo, sejam de qualquer espécie, já visitaram nossos pensamentos mais descuidados? E a tal da inveja ou ciúmes? Esse pequenos delitos podem tomar conta de uma sociedade inteira. Eles ainda podem ser mais cruéis e podem afetar cada indivíduo e minar seus sentimentos, embrutecer sua alma e diminuir a possibilidade do sentimento de felicidade mais constante.  O egoísta nunca estará satisfeito, o intolerante sempre achará algo para ser insuportável e o orgulhoso nunca se enxergará como o que realmente é, simples humano.

Presentes em nossas vidas ou não, devemos ser vigilantes para que não nos contaminem e passem a nos guiar  dia-a-dia em pequenas ou grandes ocasiões. Que estes sentimentos estejam longe de nossos pensamentos e corações para que não nos acarretem problemas físicos ou morais. O cianeto pode ter matado Alan Turing fisicamente, mas quais seriam os outros venenos de uma sociedade contaminada que provavelmente o matara lentamente ao longo dos anos muito antes dele morder aquela maçã?

Ricardo